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retomada.gif (16651 bytes) Retomada vem com a confiança

 

 

 


Fernando Calmon
é jornalista e consultor

 

        O ano de 98 trouxe muitas surpresas para o mercado automobilístico. A maioria das previsões apontava um crescimento médio anual de 9% entre 1996 e 2000, o que levaria o Brasil a entrar no século 21 com vendas internas da ordem de 2,5 milhões de unidades, incluindo veículos comerciais. O País estaria assim disputando a quarta ou quinta colocação entre os maiores mercados domésticos do mundo.
        Em 1997 tudo andava direitinho. Até demais. Em outubro daquele ano havia euforia, pois as vendas acumuladas cresceram quase 20%. Veio a primeira crise internacional e o choque dos juros, porém, ainda assim, o ano terminou com números 12% maiores, apesar da queda livre do último bimestre. Esperava-se uma reação em 1998. Ela ocorreu, pequena, entre março e junho. Agosto foi relativamente bom e, em seguida, novo mergulho das vendas.
        Balanço final, desanimador. Tudo o que se ganhou, se perdeu. O quadro de apatia e até de perplexidade tornava difícil qualquer análise do que poderia ocorrer daqui para frente. À procura de respostas, mais de 600 profissionais e executivos do setor automobilístico reuniram-se no recente seminário Perspectivas 99, da publicação Autodata, em São Paulo, para ouvir especialistas em análises econômicas, jornalistas e os presidentes das grandes fábricas.
        Rogério Aun, vice-presidente da consultoria A. T. Kearney, disse que a situação de curto prazo do Brasil não é muito diferente daquela do resto do mundo. Afinal, a utilização de 96% da capacidade instalada, como ocorreu em 97, estava longe da normalidade e dos padrões internacionais. O que acontece agora é uma situação inversa e exagerada. O setor terá que conviver com uma ociosidade de até 40%, em 1999, se a produção estancar em 1,5 milhão de unidades. O excesso de capacidade instalada mundial está em torno de 25%. E deu sua fórmula de sobrevivência: abaixar o ponto de equilíbrio dos negócios, melhorar o desempenho dos distribuidores e explorar oportunidades no pós-venda.
        O presidente da Ford América do Sul, James Padilla, só espera reação da indústria depois de 1999, que deverá ter produção até 10% menor do que 1998. Transmitiu pessimismo em relação ao nível de emprego e deixou dúvidas quanto à manutenção do ritmo de investimentos em produtos e aumento de capacidade. Ressalvou, no entanto, que a nova fábrica de Guaíba, RS, não seria afetada.
        Já Giovanni Razelli, superintendente da Fiat, considera normal que após cinco anos de crescimento, quando mais que dobrou a produção de veículos, se passe por uma situação de altos e baixos. Para ele, se o País sobreviveu às agruras do período 90/94, deve-se gerir a crise atual como impulsionadora da competitividade. E citou a pesquisa da Kearney, do início de 98, entre 1.000 executivos de todo o mundo, que consideraram o Brasil o segundo país preferido para investimentos, atrás apenas da China. Hoje, seria o primeiro. "Os riscos permanecem, mas as oportunidades são ainda maiores." Está prevendo crescimento zero do mercado em 1999 e uma recuperação lenta até o ano 2001.
        A exposição mais técnica foi de Fritz Henderson, da GMB. Ele reconhece que o aumento de capacidade de produção, bem superior à demanda, vai colocar pressão na lucratividade. A volatilidade atual do mercado tem causas mais complexas, no nível global. Demonstrou preocupação com a disparidade cambial entre Brasil e Argentina. Ainda tem dúvidas sobre se o crescimento do mercado se dará a partir dos patamares mais baixos atuais ou se retornará ao exuberante caminho previsto anteriormente. Concluiu que, apesar das dificuldades de curto prazo, o crescimento no longo prazo é ainda alcançável.
        As perspectivas do setor de caminhões e ônibus são mais estáveis. Roberto Bógus, da Mercedes-Benz, prevê um mercado médio, nos próximos dez anos, de 60.000 veículos anuais, para atender o crescimento da economia e cobrir o sucateamento inadiável. Se houvesse um plano de rejuvenescimento da frota, cuja idade média é duas vezes superior aos padrões mundiais, poderiam ser acrescentadas 30.000 unidades por ano.
        Jorma Halonen, presidente da Scania do Brasil e América Latina, fez a análise mais otimista de curto prazo. Acredita que o PIB possa crescer 1% em 1999, especialmente pela reação no segundo semestre, contra estimativas de queda de até 2% por parte de alguns economistas. Os desafios: redução de custos de produção e também dos clientes, criatividade em novos serviços e veículos específicos para diferentes aplicações.
        Queda de 6% a crescimento de 10%. Este é o intervalo de variação — entre 1,4 milhão e 1,8 milhão de unidades — que o mercado interno pode apresentar como resultado final em 1999, segundo Herbert Demel, presidente da Volkswagen do Brasil e Argentina. A mudança de cenário da indústria entre dois outubros negros — 97 e 98 — não vai afetar de forma significativa os planos de modernização de fábricas e produtos da marca. Demel não é entusiasta por planos de renovação da frota incentivada via impostos por "inchar" momentaneamente a produção. Ele prefere que o programa de inspeção veicular saia do papel e estimule a demanda pela retirada de circulação de veículos muito velhos e poluentes.
        O recado dos 11 conferencistas foi claro. A crise de vendas do setor e do País está superestimada. Não deverá haver cortes de investimentos – no máximo desaceleração cautelosa do aumento da capacidade produtiva – e nem desemprego em massa. Mesmo porque os fabricantes que chegam podem absorver parte do pessoal potencialmente ocioso. A competição será muito rigorosa, pois em nenhum outro país ou região do mundo tantas marcas estarão disputando a preferência dos consumidores. Afinal, a frota brasileira deveria dobrar de tamanho, para que se alcançasse a densidade em torno dos 5 habitantes por veículo que a Argentina já exibe, hoje.
        A crise é de confiança. Concluídas as reformas econômicas e o processo de redução das taxas de juros, nada impedirá a retomada. Desanuviado o nevoeiro econômico, é só passar para a pista expressa e reacelerar com vontade. Os outros que acompanhem.

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