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Mulheres no comando: os homens que se cuidem

 

Com muito jeito e determinação, elas assumiram negócios que movimentam milhões de dólares por ano. Provocaram mudanças em todos os setores da Concessionária e, aos poucos, provaram que são tão competentes quanto os homens. Sob alguns aspectos, até melhores que eles.

 

        A maioria delas não sonhava em estar à frente de um grande negócio. Muito menos esperava gerenciar uma Concessionária de veículos. Ao contrário, tinha outros planos. Algumas pretendiam dedicar-se à medicina, pedagogia e contabilidade. Outras se restringiam aos cuidados com a família.
        Mas nem tudo aconteceu como elas imaginavam. Mudanças de percurso obrigaram essas mulheres a assumir a liderança de empresas até então administradas por suas famílias. Ingressaram no ramo com muita disposição e coragem, transformando seus negócios em empreendimentos promissores.
         Elas comprovam a tese de que cada vez mais mulheres ocupam cargos de liderança. Um levantamento feito pelo grupo Catalyst, que pesquisa questões relacionadas a interesses femininos, em Nova Iorque, descobriu que no ano passado aumentou 10% o número de cargos de diretoria ocupados por mulheres nas 500 maiores empresas americanas. Outros dados reveladores: elas são proprietárias de 32% das empresas da Austrália, 35% das do Canadá, 31% das do Japão e 42% das de Portugal. Nos Estados Unidos, de acordo com pesquisa feita pela National Foundation for Women Business Owners, há oito milhões de empresas de propriedade de mulheres, gerando 2,3 trilhões de dólares por ano.
         A ala feminina avança com determinação. Celina Maria da Fonte de Albuquerque, de 52 anos, levou tão a sério a administração de A Fonte, em Recife (PE), da qual é diretora financeira, que foi carinhosamente apelidada pelos funcionários de Margareth Tachter. "Além de cuidar das contas da revenda, resolvi colocar ordem na casa. Comecei a controlar o uso dos macacões na oficina, que eram distribuídos aos funcionários aleatoriamente. Mudei a faixa salarial dos mecânicos que, na época, estava acima do mercado. Aos poucos fui corrigindo falhas em todos os setores da Concessionária", explica. Sempre preocupada com o crescimento de sua empresa, Celina Maria foi responsável também pela informatização total da Revenda e pela modernização da oficina, que de 20 passagens por dia saltou para 80.
         Robson Rui Varjão, gerente de veículos de A Fonte, diz que Celina Maria é realmente muito determinada e exigente. "Além da parte administrativa, ela cuida de todos os detalhes dentro da Concessionária. Faz questão que tudo ande bem e corretamente. Exige oficina impecável, lavada e encerada regularmente. Cobra lealdade dos colaboradores e quem mentir está fora da empresa. Acredito que se ela não estivesse na revenda, as coisas não teriam andado da mesma forma nos últimos anos, pois Celina trabalha às claras, diferente de muitos homens por aí". Outra qualidade da diretora de A Fonte, segundo Varjão, é a preocupação com desperdício: "Ela não permite gasto desnecessário de material algum. Está sempre atenta".
         Formada em contabilidade, Celina Maria assumiu a parte administrativa e financeira de A Fonte em 1980, logo depois que o pai, Armando da Fonte, se afastou da empresa. "Meus irmãos me chamaram em função dos meus conhecimentos na área de contabilidade. No início eu nem tinha sala. Mas não reclamava e fazia meu trabalho. Acho que minha família não esperava que eu iria me interessar tanto pelo assunto", diz.

Longe do bisturi

         Neusa Maria Vigorito, de 53 anos, também foi requisitada pela família para dar novo impulso à Vigorito. "Fui chamada para uma conversa sobre os negócios iniciados por meu avô Felício Vigorito, em 1925. Resolvi ver o que estava acontecendo e me interessei pelo assunto. A empresa não ia bem, mas percebi que tínhamos potencial. Achei que poderíamos reverter a situação", lembra. Atuando como médica e sem nunca ter administrado nenhum tipo de negócio, Neusa foi buscar nos cursos de gerenciamento os ingredientes para uma atuação perfeita. Alguns meses depois, em março de 1990, deixou parte de suas atividades ligadas à medicina e assumiu o comando da Vigorito ao lado de mais 15 sócios.
         A primeira iniciativa da atual diretora da Vigorito, em São Paulo, foi a total modernização da empresa. "Depois de uma fase áurea, a Concessionária passou por um processo de envelhecimento. O número de sócios era grande, o que, muitas vezes, dificultava o entendimento. Não era fácil administrar com tanta gente palpitando", relembra. Aos poucos Neusa foi identificando falhas na administração e descobrindo quais os sócios poderiam colaborar no crescimento da revenda. "O que me incentivava, na época, era pensar que nós tínhamos as mesmas chances de evoluir que as outras empresas do setor", diz.
         Neusa acredita que seu mérito está em ter enxergado a tempo que a Vigorito perdia terreno: "Tínhamos todas as ferramentas, mas não estávamos sabendo como usá-las". Com mudanças na forma de administração da revenda, que incluiu principalmente a aglutinação e conscientização dos sócios, Neusa deu seu primeiro passo: recuperou a credibilidade da revenda, passando a fazer parte da linha de frente da GM. "Em 1990 vendíamos 50 carros por mês. Hoje já batemos a marca de 250 carros por mês", afirma. Sua formação humanística, segundo ela, contribuiu muito para seu sucesso no gerenciamento dos negócios e principalmente na reordenação dos sócios, que resultou num trabalho em equipe. "Enquanto eu cuidava das questões familiares e tentava manter o pessoal unido, tive a ajuda de primos que lideraram as questões financeiras", diz.
         Para Hermes Schincariol, diretor da Vigorito, Neusa foi a principal responsável pelo crescimento da Concessionária, embora tenha sido apoiada por familiares. "Ela tem um jeito especial de lidar com as pessoas. É incapaz de desagradar alguém. Acho que essa qualidade também colaborou para que ela conseguisse aglutinar todos os sócios em torno das idéias que levantariam a empresa".
         Outro predicado a favor das mulheres é o bom-senso. Para Sueli Villela Boacnin, de 56 anos, diretora da Discar, em São Carlos (SP), o bom desempenho em qualquer ambiente de trabalho é determinado pelo bom-senso. "Para a tomada correta de decisões é preciso pensar muito. Não devemos optar por um caminho qualquer. O ideal é aquele definido em função de uma série de argumentos", diz. Ela comprova o que afirma: quando assumiu o negócio em 1994, a Concessionária vendia 60 carros por mês. "Atualmente vendemos 90 por mês, mesmo tendo restringido nossas atividades apenas para São Carlos e região. Mas com a limitação da área de atuação, triplicamos o serviço em nossa oficina, que hoje chega a 40 carros por dia". Há três anos a oficina foi totalmente reprogramada e ganhou novos equipamentos. Os mecânicos foram divididos em dois times de trabalho e se reúnem três vezes por semana, para discutir produtividade e níveis de satisfação do cliente.
         Atualmente, um dos sonhos da diretora da Discar é transformar a seção de peças numa espécie de supermercado. "As peças foram embaladas uma a uma e dispostas em prateleiras para o cliente ter acesso a elas. Ainda não consegui concluir o projeto e por isso as peças estão sendo vendidas no balcão. Temos de fazer uma reforma do espaço para colocar os terminais e os caixas. Espero ter isso pronto ainda este ano", explica.
         Assim como outras mulheres, Sueli ingressou no setor por acaso. Deixou o magistério para assumir a construção da Discar, em 1989, quando o marido Samuel Boacnin teve de passar por uma cirurgia. "Comecei junto com a empresa. Aos poucos fui me inteirando do assunto até que em 1994 assumi de vez a revenda. Passei a cuidar dos negócios em São Carlos enquanto meu marido se dedicava à sua Concessionária em São Paulo".

A número 1

         Ainda restam dúvidas sobre a competência das mulheres? Sim. Algumas pessoas, inclusive homens, ainda não acreditam na capacidade da ala feminina. Esse tipo de descrença serviu como desafio para Maria Elisa Martins Vieira, de 49 anos, diretora da Silmar Mercantil Veículos, em Campinas (SP).
         Após assumir o comando da Concessionária em 1994, poucos dias depois da morte de seu pai, Décio Rodrigues Martins, ela recebeu em sua empresa um funcionário da GM, que perguntou: "O que será feito desse negócio sem seu pai?". Ela não pensou duas vezes e respondeu: "Será uma Concessionária A (classificação concedida pela GM para as melhores revendas da marca)." Diante da promessa, não lhe restou outra alternativa senão arregaçar as mangas e pôr a mão na massa. Trouxe o tio José Roberto Rodrigues, que havia trabalhado ao lado de seu pai, para ajudá-la e preparou o filho dele, José Luiz Rodrigues Martins, para cuidar da parte administrativa e financeira. Em 1995 ele assumiu o cargo de diretor geral.
         Sem saber direito o que era preciso para ter sua revenda consagrada como Concessionária A, Maria Elisa iniciou as mudanças. Primeiro preparou seu pessoal, o que considera fundamental em qualquer negócio. "Começamos a conscientizar os funcionários da necessidade de modernização. Investimos nossos finais de semana em treinamento e nos habituamos a discutir constantemente o indíce de satisfação do cliente. Hoje meus 170 colaboradores são 100% treinados", afirma.
         Outras mudanças relacionadas à estrutura da empresa fizeram com que a Silmar conseguisse saltar dos 100 carros vendidos por mês, em 1994, para 300 este ano. Além disso, conforme Maria Elisa prometera, a revenda recebeu a classificação Concessionária A, durante o Franchising Meeting da GM, em abril deste ano. Mas isso não esgotou seus planos: "O objetivo é alcançar a marca de 400 veículos até o final de 1998". Ela atribui esse crescimento ao trabalho conjunto do titular e seus funcionários. "É preciso confiar na equipe, que deve estar bem preparada. O bom administrador é aquele que sabe delegar e colocar as pessoas adequadas nos lugares certos", afirma.
         O tipo de tratamento dispensado aos funcionários também pode garantir efeitos positivos na administração da revenda, na opinião de Ana Rosa Samico Bezerra Cavalcante, de 40 anos, diretora administrativa e financeira da Ribeira Veículos, em Recife (PE). "Meu pai era muito humano e acabava se envolvendo pessoalmente com os funcionários. Quando não conseguia pagar determinado salário, ele completava os rendimentos do pessoal com carro e outros benefícios. Isso não trazia vantagens para a empresa, pois sempre nos decepcionávamos com nossos colaboradores. Então resolvemos pagar salários justos e oferecer oportunidade de aumentarem seus ganhos. Tal atitude mudou a consciência de nossos funcionários, que passaram a se empenhar mais", explica.
         Ana Rosa é uma das poucas mulheres que, como ela mesma diz, cresceu no meio da graxa. Começou a trabalhar com 18 anos na Concessionária do pai, em 1977, no setor de peças. Formada em Pedagogia, em 1984, seu pai resolveu levá-la para trabalhar ao lado dele. "Naquela época, minha função era cobrar o dinheiro que estava na rua. Mas, de vez em quando, eu também saía para testar carro. E gradativamente passei a me interessar pela empresa como um todo", diz.
         Uma das vitórias da diretora da Ribeira, que assumiu definitivamente o comando da empresa, ao lado de seus irmãos, em 1993, em função da morte de seu pai, foi a construção do novo prédio, iniciado há cinco anos, que concluiu a modernização das instalações da revenda. Além disso, a Ribeira tem investido muito em propaganda, uma nova filosofia implantada por Ana Rosa. "Precisamos estar inseridos no processo de globalização da economia. Temos de crescer e ser reconhecidos", sustenta.

Pedras no caminho

         Ser mulher ou não ser mulher, eis a questão. Embora a ala feminina tenha provado competência e determinação, o Brasil ainda está um pouco longe de ser o país da igualdade. Maria Elisa diz que enfrentou dificuldades. "Vivemos num país machista. Faz pouco tempo que os homens começaram a se conscientizar do poder feminino. Até hoje tenho problemas. Um deles é a minha candidatura à diretoria da ABRAC. Ainda existe discriminação, tanto na Rede como na GM", desabafa.
         Celina Maria não compartilha dessa opinião e não acredita em machismo no ambiente de trabalho. "Quando as pessoas percebem que as mudanças estão dando certo e contribuindo para a evolução do negócio, não há porque resistir a elas. Apesar de me acharem um pouco brava, sempre fui respeitada", afirma.
         Sueli não descarta o problema do preconceito. "Quando comecei a freqüentar a GM, tratava-se de um mundo dominado quase que exclusivamente pela ala masculina. Normalmente eles vêem as mulheres com outros olhos. Mas, gradativamente, tentei me impor para que acreditassem nas minhas idéias", desabafa.
         Em contrapartida, segundo a diretora da Discar, alguns homens já começaram a buscar inspiração na atuação feminina. Durante conversas informais com o marido, Sueli sempre acaba falando sobre seus feitos na Concessionária de São Carlos e percebe que algumas de suas ações são aproveitadas. "Samuel me acha muito teimosa. Mas muitas vezes ele acaba adotando minhas idéias para implantá-las, também, na sua Concessionária em São Paulo. Apesar de não admitir", diz.
         Dois fatores podem determinar a discriminação em relação à ala feminina no mercado de trabalho, segundo a diretora da Discar: "Alguns homens receiam ter suas chances reduzidas em função do maior número de candidatos. E na maioria das vezes a mulher não se valoriza. Ela precisa manter um padrão de comportamento para que seja reconhecida como uma boa profissional. Deve manter seus objetivos e jamais esquecer que a escala para o sucesso é o trabalho. Algumas perdem o valor quando se envolvem em relações afetivas com chefes ou superiores", diz.
        Ana Rosa nunca teve problemas com a ala masculina, mesmo porque iniciou sua carreira no setor de peças, local que, naquela época, reunia grande número de homens. Sua maior dificuldade foi pessoal. "Queria tomar decisões importantes e perfeitas na época, mas não dispunha de amadurecimento. No entanto, meu pai soube me dar liberdade de ação e eu consegui aproveitá-la". Para Murilo Batista Lippo Filho, contador da Ribeira Veículos, Ana Rosa é muito respeitada por todos em função de sua competência. "Ela sabe o que está falando quando dá uma ordem, pois está apoiada na sua experiência. Praticamente nasceu dentro de uma Concessionária e está apta a desempenhar qualquer função no setor. Se for preciso, ela assume até o lugar do mecânico", diz.

Paz entre os sexos

         Alguns homens já se acostumaram com a idéia de serem comandados pelo sexo feminino. O contador da Ribeira Veículos, prefere as chefes. "É mais fácil discutir um problema com elas. A conversa torna-se mais maleável". Em compensação Lippo prefere ter homens sob seu comando: "Consigo ser mais enérgico com os homens. É delicado, por exemplo, exigir hora extra de uma funcionária que tem filho e casa para cuidar. Já o homem não tem problemas desta natureza".
          Por questões diferentes, Maria Elisa também prefere liderar homens. "Quando converso com mulheres, parece que me comunico no mesmo nível, pois elas têm intuição e conseguem perceber, inclusive, algum tipo de fraqueza. Acho que com elas estou mais exposta. Já quando dirijo ordens aos homens, tenho sensação de estar lidando com filhos, o que é bem mais fácil", explica.
         Os marinheiros de primeira viagem também não reclamam delas. É a primeira vez que Paulo Sérgio Bidinotto, gerente administrativo da Discar, tem como superior uma mulher. "A experiência é gratificante. Sueli não impõe nada. Sempre conversamos muito e procuramos juntos as melhores soluções. Antes, com chefes do sexo masculino, as idéias vinham formatadas. Ela é muito determinada e tem carisma para tratar as pessoas". Em momento algum Bidinotto desconfia da competência delas: "A Discar tem quadro de funcionários recheado de mulheres, presentes nos setores de vendas, peças e oficina. Elas são mais delicadas no tratamento com o cliente e falam de mecânica com muita segurança. E o cliente confia nelas".
         A Silmar também aposta na eficiência da ala feminina. Wilson Saccheto, gerente de vendas da empresa, diz que a Concessionária foi uma das pioneiras a trabalhar com mulher no departamento de vendas. "É muito mais agradável ser atendido por uma mulher perfumada, falando sobre motor com competência. Ela é mais graciosa no atendimento e, também com conhecimento, acaba encantando o cliente", diz. Mas ele acredita que algumas funções ainda devem ser desempenhadas por homens. "Uma vendedora visitando um frotista seria tão inconveniente quanto um homem sisudo no departamento de vendas".
         A Discar também mantém um grande número de funcionárias do sexo feminino. "Mas um dos poucos cargos que faço questão que seja ocupado por mulher é a coordenação do ferramental. A funcionária é mais organizada e cuida melhor do local", explica Sueli.
         Na opinião da diretora-financeira de A Fonte, a mulher muitas vezes consegue se destacar mais que o homem em função da sua sensibilidade. "Ela é mais minuciosa. Está sempre atenta a tudo. Consegue perceber quando o jardim precisa de cuidados especiais ou uma parede está descascada. Cuida de todos os detalhes com competência". Mas não é por isso que Celina Maria faz questão de mulheres em sua Concessionária. "Ganha o cargo o mais capacitado. Apenas a telefonista eu faço questão que seja do sexo feminino".

 

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